quinta-feira, 3 de julho de 2008

COOPERATIVA OFERECE OPORTUNIDADES A EX-BADAMEIROS

Cooperativa investe na auto-estima dos ex-badameiros do antigo lixão de Canabrava

Era noite ainda, quando a rotina de Nélia de Jesus dos Santos começava. A cidade preparava-se para dormir, quando aquela mulher deixava a sua casa em Canabrava para coletar papel, latinhas de alumínio e outros materiais recicláveis entre ratos, no antigo Aterro Sanitário de Canabrava. Dali, a ex-badameira tirou seu sustento e de sua filha durante dezenove anos. Hoje, com a criação da Cooperativa Recicláveis de Canabrava (Cooperbrava), não só Nélia como mais 55 ex-badameiros tiveram uma grande mudança na sua vida: eles agora ganham um salário mínimo por mês, além de recuperarem a sua auto-estima.
Desde a sua data de fundação, 21 de julho de 2003, Cooperbrava, ligada ao Centro de Estudos Sócio-ambiental (Pangea), tem investido na auto-estima dos ex-catadores de lixo do antigo Aterro Sanitário de Canabrava – hoje localizado em Simões Filho. Com a colaboração do Governo Federal e Petrobrás, foi implantado na cooperativa o programa de geração de trabalho e renda com o intuito de incentivar novos negócios em empreendimentos coletivos, visando à melhoria social e financeira dos ex-badameiros.

A Cooperbrava possui cerca de 55 cooperados entre mulheres e homens, jovens e adultos que a partir de então, deixaram de inalar o gás metano e trocaram a incerteza de se ter um alimento na mesa e a certeza de se adquirir uma doença por uma remuneração de um salário mínimo por mês, variando com a produção e com o mercado de produtos reciclados.

A cooperativa que há dois anos tem o apoio dos técnicos do Pangea, trabalha em prol do desenvolvimento socioeconômico dos cooperados (ex-catadores). O trabalho que era feito individualmente por cada catador, agora é feito em conjunto. O material que é recolhido pelos carros de coleta seletiva e muitas vezes doado por pessoas e empresas que conhecem o trabalho da Cooperbrava é armazenado em um galpão, onde passa pelo processo de triagem, prensa e armazenamento em grande quantidade e logo depois é vendido para as industrias de reciclagem.

“Depois que eles perceberam que a questão é séria, verificaram que ninguém está aqui para explorá-los a gente conseguiu entrar com outros fatores”, disse o psicólogo Marcelo Ribeiro Moura, em sua entrevista. Marcelo ainda afirma que o projeto de capacitação foi e está sendo essencial nas negociações dentro do mercado, possibilitando aos cooperados um melhor nível econômico.

O projeto de capacitação está baseado no regimento interno da Cooperbrava numa forma de produção organizada, no qual regem três conselhos: administrativo, fiscal e ético. Na medida em que o regimento é aplicado entre os cooperados, chega o determinado momento de enxergar aqueles que podem atuar na linha de liderança que no primeiro instante é feita pelos técnicos do Pangea. Essa distribuição de liderança ocorre entre os próprios catadores. Eles são escolhidos por se destacarem entre os outros.

Hoje, os ex-catadores estão satisfeitos com a atual administração da Cooperbrava, exercida por Moisés Gil, “agora com essa nova administração o financeiro está mais equilibrado, mas de primeira era uma bagunça só, às vezes a gente ganhava R$ 60,00 ou R$ 90,00 por mês que não dava nem para comer, mas assim mesmo a gente sobrevivia”, afirmou a ex-catadora Domice dos Santos.

A possibilidade de se adquirir um plano de saúde ou até mesmo um financiamento para casa própria agora faz parte da realidade dos ex-catadores. Hoje, eles possuem uma conta no banco que permite a realização de transações comerciais e por sua vez o seu reconhecimento no meio social.

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